quinta-feira, agosto 03, 2006

 

On the threshold

O chão está gelado e a porta nunca se abre. Ainda sente ecoar em seus ouvidos o baque surdo da porta batendo na sua cara, como se tivesse sido apenas a alguns segundos atrás. Mesmo assim, sabe que já está ali há muito tempo, ainda que não consiga dizer ao certo quanto.

Começa a se lembrar de todas as intempéries enfrentadas enquanto esteve ali e se admira por ainda estar viva, por ainda sentir o calor de seu sangue pulsando em suas veias. Frio, muito frio. De fazer doer a carne. E chuva. De molhar a alma. Ainda consegue sentir as últimas gotas de chuva abundante que secaram sobre o seu rosto. A roupa também não secou desde a última chuva. Fica imaginando quando virá a próxima.

Apesar de a porta não dar sinais de abrir, consegue ouvir alguns sons vindos de dentro. Reconhece algumas palavras e vozes. Algumas delas lhe trazem conforto por breves momentos, mas a maioria, não. Reverberam por horas como trovões a anunciar a próxima chuva que ela não consegue evitar. O frio volta a doer - até o esquecimento.

Revolta-se consigo mesma e tenta se levantar, dar as costas para a porta de uma vez, desistir de esperar que ela se abra. Decide que vai abrí-la ela mesma. Quando estiver aberta usará de violência para fazer cessar aquelas vozes que a atormentam. Uma faca. Há de haver uma faca lá dentro. Não, melhor não chegar a esse ponto. Os punhos devem bastar. Nunca foi forte, mas há de reunir toda a energia de seu corpo para bater com força. Se levanta num esforço descomunal, alimentada por seu ódio. Ódio de si mesma, de sua covardia e de tudo o que fizera até ali. O ódio começa a encher seu corpo de calor e ela sente que será capaz. Mas começa a imaginar o ato desesperado e se acovarda. Arrega. Sente suas pernas bambearem, o calor do ódio se esvai e ela volta a cair, apática. Um espectro do que um dia fora. Sentada sobre a soleira da porta.





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